A cultura do morango no Brasil tem experimentado um crescimento notável, com a FAO/ONU registrando quase 194 mil toneladas em 2024. O sucesso desta produção está intrinsecamente ligado à qualidade das mudas. Mudas comprometidas por contaminação ou baixa vitalidade não apenas afetam o estabelecimento inicial da plantação, mas também facilitam a propagação de doenças e diminuem consideravelmente o rendimento. A propagação tradicional por estolões, embora comum, apresenta desafios crescentes na obtenção de material vegetal livre de patógenos. Nesse contexto, técnicas avançadas de limpeza clonal são essenciais para produzir mudas uniformes, sadias e com alta segurança fitossanitária, garantindo a eficiência e a rentabilidade da cadeia produtiva do morango.
A propagação vegetativa convencional, que utiliza estolões de plantas-matrizes, é um método de baixo custo e simplicidade. Contudo, suas desvantagens sanitárias são significativas. A reutilização contínua das plantas-matrizes leva ao acúmulo e à disseminação de patógenos sistêmicos, como vírus, que frequentemente não manifestam sintomas visíveis nas primeiras fases do cultivo. Além dos vírus, outros microrganismos, como fungos e bactérias, também podem ser transmitidos por essa via, complicando o controle das doenças no campo, já que o problema começa desde o plantio. Essa situação resulta em plantas com crescimento irregular, menor vigor, queda na produtividade e aumento dos gastos com manejo fitossanitário.
Em resposta a esses desafios, a cultura de tecidos vegetais, especialmente a micropropagação, surge como uma alternativa eficaz para a produção de mudas de morango com altos padrões sanitários e genéticos. Este processo envolve a regeneração de plantas a partir de pequenos fragmentos de tecido, como meristemas apicais, cultivados em um ambiente estéril e com condições de crescimento rigorosamente controladas, incluindo nutrientes, fitormônios, temperatura, iluminação e umidade. A utilização de meristemas é crucial porque essas regiões são desprovidas de vasos condutores, o que impede a colonização microbiana e permite a obtenção de plantas livres de patógenos. A micropropagação não só assegura a produção contínua de mudas ao longo do ano, independentemente das condições climáticas, mas também preserva as características genéticas da planta-mãe, promovendo maior uniformidade e qualidade fisiológica do material entregue aos produtores.
As mudas desenvolvidas por meio da cultura de tecidos não são diretamente direcionadas para o plantio comercial. Geralmente, esse material de alta qualidade sanitária e genética é enviado para viveiros especializados, onde atua como base para as plantas-matrizes. A partir dessas matrizes, novas mudas são geradas por propagação vegetativa via estolões, mantendo a sanidade e a uniformidade nos primeiros ciclos. Contudo, com os cultivos e multiplicações subsequentes, a qualidade sanitária das matrizes pode deteriorar-se devido ao acúmulo de patógenos e à influência do ambiente de produção, tornando necessária a renovação periódica dessas plantas-matrizes.
Do ponto de vista econômico, a principal diferença entre a propagação convencional e a micropropagação reside no custo inicial das mudas. Embora as mudas convencionais, propagadas vegetativamente, sejam mais baratas (R$2,00 a R$6,00), as mudas micropropagadas, que variam de R$3,00 a R$9,00, são mais caras devido à complexidade do processo e à infraestrutura laboratorial especializada. No entanto, ao considerar o custo-benefício ao longo do ciclo produtivo, as mudas micropropagadas oferecem vantagens significativas. A sua maior sanidade minimiza perdas causadas por doenças, reduz a necessidade de replantio e promove uma uniformidade maior na plantação, o que se traduz em um melhor aproveitamento da área e um aumento na produtividade total, além de diminuir a aplicação de defensivos.
Em suma, a qualidade das mudas é um fator primordial para o sucesso do cultivo de morangos. Embora a propagação vegetativa convencional seja comum, suas limitações sanitárias podem comprometer o rendimento. A micropropagação, baseada na cultura de tecidos, é uma solução tecnologicamente avançada para a obtenção de mudas com elevada sanidade, uniformidade genética e qualidade fisiológica. Essa técnica é adotada por produtores de diversos portes como uma estratégia para a formação de plantas-matrizes mais seguras. Apesar do investimento inicial mais elevado, as mudas micropropagadas proporcionam benefícios duradouros, como a redução de perdas por doenças, maior uniformidade da cultura e otimização da área cultivada. Dessa forma, esse sistema produtivo contribui significativamente para o aumento da eficiência, previsibilidade e sustentabilidade da cultura do morango em todas as escalas.